Com a última data confirmada prestes a acontecer no Centro de Convenções de Salvador, é hora de recapitular parada por parada
Se alguém dissesse há alguns anos que a maior popstar do Brasil faria uma turnê conceitual focada em espiritualidade, silêncio, mantras e reflexão, muitos duvidariam. Mas a Equilibrium Tour provou que Anitta não tem medo de subverter expectativas. Concebida para celebrar os álbuns Equilibrivm e Equilibrivm II, lançados em 2026, a empreitada adotou um formato intimista, de curtíssima temporada e alta exclusividade, passando longe das megaestruturas de estádios habituais da artista.
Anunciada no final de maio, a turnê seguiu uma linha propositalmente escassa. Em vez de dezenas de datas espalhadas pelo país, a cantora optou por fincar sua bandeira em apenas cinco capitais e regiões estratégicas durante o mês de agosto: Porto Alegre, São Paulo, Fortaleza, Niterói e, fechando o ciclo, Salvador.
A proposta desde o início foi direta:
“Quem for, tem que ter escutado o álbum inteiro, porque é isso que eu vou cantar”, avisou a artista
Exigindo dos fãs uma imersão completa em sua nova sonoridade voltada à ancestralidade, à religiosidade e à calmaria.
Com o setlist robusto ultrapassou a marca de 40 músicas, divididas rigorosamente em atos temáticos, detalhamos os momentos mais marcantes, as surpresas no repertório e as curiosidades que definiram essa fase mística da “Girl from Rio”.
Porto Alegre (01/08) – A estreia ritualística no Sul
Lotando a Fly 51, a jornada teve início em solo gaúcho diante de um público que rapidamente entendeu que a noite não seria sobre coreografias carnavalescas frenéticas, mas sim sobre contemplação. Dividido em quatro atos bem marcados, o espetáculo misturou faixas inéditas com releituras refinadas da MPB.
São Paulo (08 e 09/08) – O furacão do Parque Villa-Lobos e o bis histórico
No Parque Villa-Lobos, a grandiosidade do projeto encontrou o dinamismo da capital paulista em uma apresentação que precisou de data extra devido à alta demanda. Com os ingressos esgotados rapidamente, o cenário arborizado serviu de moldura para um dos espetáculos mais elogiados pela crítica em termos de harmonia visual e iluminação cênica.
A participação especial dos Brô Mc’s e de Katú Mirim na performance da faixa “Okê”. A energia do público foi tão ensurdecedora e o coro coletivo tão forte que a música precisou ser reprisada logo em seguida a pedidos da plateia, gerando um dos ápices emocionais da turnê.
Fortaleza (15/08) – A dualidade entre o zen e o calor nordestino
Na passagem pela capital cearense, a turnê aconteceu no Colosso Fortaleza e provou que a transição entre o clima reflexivo e a pressão do batidão funcionava perfeitamente na prática. O público nordestino abraçou a proposta mística, mas ferveu de vez quando os blocos mais dançantes e percussivos tomaram conta do palco na reta final.
A entrega total da plateia nos blocos dedicados à exaltação das divindades de matriz africana. A sintonia de Anitta com o público cearense transformou o espaço à beira da lagoa em um verdadeiro caldeirão cultural, misturando o transe dos mantras com o calor típico do Nordeste.
Niterói (22/08) – O megaevento fluminense transmitido para o Brasil
Sendo a única parada oficial no estado do Rio de Janeiro, o show em Niterói aconteceu no Caminho Niemeyer teve dimensão de megaepopeia. Com uma área externa monumental projetada pelo célebre arquiteto, o evento atraiu um verdadeiro desfile de famosos e influenciadores à plateia.
Com o espetáculo sendo transmitido ao vivo pela Multishow e Globoplay, no palco, a cantora não escondeu sua espiritualidade, protagonizando momentos em que entoava cânticos e saudava divindades como Ogum e Oxum, transformando a cidade em um verdadeiro local de celebração artística.
A turnê abriu espaço para reverências profundas à ancestralidade brasileira, incluindo no repertório interpretações inspiradas de clássicos de nomes como Gilberto Gil (“Andar com Fé”), Natiruts (“Presente de um Beija-Flor”) e referências a Gerônimo.
Com o encerramento marcado para este sábado (29) no Centro de Convenções de Salvador, a Equilibrium Tour deixa saudades e a certeza de que Anitta é capaz de lotar espaços cantando mantras e silêncios com a mesma facilidade com que domina os maiores palcos pop do planeta. Resta saber quais serão os próximos passos dessa fase espiritual e artística da cantora.
Seja pela ousadia de trocar o rebolado por mantras, seja pela coragem de lançar luz sobre ritmos e crenças ancestrais em um momento de pico comercial, a artista prova que seu maior trunfo nunca foi apenas a música, mas a capacidade constante de se reinventar e fica a marca indelével de uma turnê que desafiou fórmulas prontas e redefiniu os rumos do pop nacional.

