Na primeira edição brasileira do projeto global da Red Bull, artista levou o funk paulista ao Auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, em uma noite que misturou orquestra, baile, memória e diferentes gerações do movimento
O ronco de uma moto foi o primeiro som a tomar conta do Auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Em cima dela, MC Hariel acelerou diante da plateia, enquanto os 56 músicos da chamada Orquestra de Fluxo reproduziam o som do motor com seus instrumentos. Logo depois, os primeiros versos de “Avisa Que É o Funk” deram início ao espetáculo que marcou a chegada do Red Bull Symphonic ao Brasil.
Pela primeira vez em território brasileiro, o projeto global da Red Bull, que já passou por países como Estados Unidos, Argentina e África do Sul, colocou o funk paulista no centro de uma apresentação sinfônica. A proposta era justamente experimentar como músicas que nasceram nos bailes poderiam ganhar uma nova forma ao lado de uma orquestra, sem deixar de lado sua identidade.
Dividido em seis atos e marcado por quatro looks diferentes, o show percorreu diferentes momentos da trajetória de Hariel e também diferentes vertentes do funk, passando pela ostentação, consciente e por momentos mais melódicos, dançantes e de celebração. O repertório reuniu músicas de diferentes fases da carreira e fez da apresentação uma espécie de viagem pela história do artista dentro do gênero.
Essa história também foi contada por quem esteve ao lado de Hariel no palco. Neguinho do Kaxeta apareceu em “Exemplos” e “Louco e Sonhador”, trazendo para a apresentação a memória da Baixada Santista. MC Ktrine, Tasha & Tracie se encontraram em “As Minas Que os Meninos Gostam” e “Tang”, enquanto MC Marks participou de “Chá de Vida”. MC Don Juan também subiu ao palco, entrou com “Oh Novinha”, um de seus maiores sucessos, antes de se juntar a Hariel em “Lei do Retorno”, parceria dos dois lançada em 2017, e Menor da VG dividiu com Hariel “Conto do Pescador”.
Entre tantos encontros, duas homenagens ganharam um peso especial. Em um dos momentos mais marcantes, Hariel cantou “Menina de Vermelho”, de MC Daleste, em uma apresentação que começou com as notas de “Bachiana Nº 5” e ainda contou com a participação da bailarina clássica Patrícia Hellen, irmã de MC Felipe Boladao.
Depois, veio “Cavalo de Tróia”, a música de MC Kevin, amigo de Hariel, foi cantada em coro pela plateia. A mãe de Kevin subiu ao palco e abraçou o artista, que se emocionou durante a homenagem. Foi um daqueles momentos em que a grandiosidade da orquestra ficou em segundo plano diante da história que estava sendo lembrada ali.
O SUBMUNDO 808 trouxe outro tipo de energia para o espetáculo. Com um set que passeou pelo funk bruxaria e por diferentes sonoridades dos bailes, o coletivo fez a apresentação chegar ainda mais perto da pista. Foi um dos momentos em que a plateia mais se entregou à proposta, transformando o auditório em baile.
E, para quem gosta de funk, havia algo especialmente forte em ver tudo aquilo acontecendo ali. Hariel estava no Memorial da América Latina, acompanhado por uma orquestra, apresentando funk em uma estrutura grandiosa. Era impossível não sentir um certo orgulho ao ver aquele palco ocupado por uma música que nasceu nas periferias e que, por tanto tempo, precisou lutar para ser reconhecida.
No último ato, essa sensação chegou ao auge. Com o look mais ligado à estética do funk e uma lata de Red Bull na mão, Hariel voltou ao palco em clima de baile. “Maçã Verde” colocou o público para cantar junto, enquanto suas dançarinas acompanhavam a apresentação com coreografias.
Para fechar a noite, os convidados voltaram ao palco. Juntos, Hariel e os artistas cantaram “Diretoria” e “Cai Lágrimas”, encerrando o espetáculo com uma grande celebração coletiva do funk.
A estreia brasileira do Red Bull Symphonic mostrou que o projeto, que já levou artistas de diferentes cenas musicais a encontros com a música sinfônica pelo mundo, também encontrou no funk paulista uma forma própria de existir. E, no caso de Hariel, essa primeira edição brasileira foi mais do que uma experiência de misturar orquestra e funk: foi a chance de ver diferentes gerações, histórias e vertentes do gênero dividindo o mesmo palco.

