Funkeiro carioca ocupa um espaço atravessado por códigos de masculinidade para colocar corpos, sensualidade e vivências LGBTQIA+ no centro da cena
Uma barbearia pode ser apenas uma barbearia. Ou pode virar palco.
Dornelles lança clipe de Glock Glock, e escolhe transformar um espaço cotidiano da Rocinha em cenário para uma narrativa onde desejo, corpo e identidade ocupam cada centímetro disponível. O clipe acompanha o lançamento do single, que chegou às plataformas em 30 de julho, em parceria com MC Jhaisy e Mi Trenda.
A escolha do cenário, porém, ajuda a contar uma história que vai além da música. Barbearias carregam um imaginário bastante específico. São espaços frequentemente associados a determinadas ideias de masculinidade, construídas a partir da performance do homem, dos códigos entre amigos e de uma espécie de vigilância silenciosa sobre quem pode ou não pertencer àquele ambiente.
Dornelles parece se divertir justamente com essa lógica. Em vez de tentar se encaixar, ele ocupa.
Dornelles lança clipe de “GLOCK GLOCK” e prova que funk também é território queer
Não é novidade que o artista utiliza sua própria vivência como homem gay para construir sua obra. Dornelles nasceu no Rio de Janeiro e vem desenvolvendo uma trajetória que mistura funk carioca, ritmos latinos e referências da cultura queer, tratando de sexo, preconceito, afeto e experiências periféricas a partir de uma perspectiva própria. Essa característica faz diferença em “GLOCK GLOCK”.
O desejo que aparece no clipe não está ali apenas como elemento decorativo ou tentativa de provocar. Ele faz parte de uma linguagem que Dornelles vem construindo há algum tempo: usar o funk, um gênero historicamente marcado por discussões sobre corpo e sexualidade, para deslocar quem normalmente ocupa esse espaço. A diferença está no ponto de vista.
Por muito tempo, a sexualidade dentro do funk foi apresentada principalmente através de uma lógica heteronormativa e masculina. Dornelles não abandona a provocação característica do gênero, mas muda quem está segurando o microfone e, principalmente, quem está no centro do desejo. E isso muda tudo.
A Rocinha não é apenas cenário
Ambientar o clipe em uma barbearia da Rocinha também impede que a favela funcione apenas como pano de fundo estético. Existe uma diferença entre utilizar um território como decoração e permitir que ele participe da narrativa.
O Rio de Janeiro periférico que aparece na obra de Dornelles é o mesmo universo que atravessa sua trajetória artística. O cantor faz parte de uma nova geração de artistas LGBTQIA+ cariocas que vêm criando redes e espaços dentro da música urbana para falar sobre experiências que nem sempre receberam protagonismo. A presença queer na periferia não é uma novidade. O que ainda parece novo para parte do público é vê-la ocupando a tela sem precisar ser explicada. Sem transformar cada corpo em manifesto. Sem interromper a música para justificar sua existência. Sem pedir autorização para estar ali.
Desejo, presença e provocação
Talvez seja justamente essa a principal força de Glock Glock. Dornelles não parece interessado em construir uma versão comportada da representatividade. Sua obra continua partindo da sensualidade, da provocação e do humor — elementos que já fazem parte do vocabulário do funk e que, em suas mãos, ganham outro significado.
O artista já construiu trabalhos anteriores marcados por uma abordagem explícita e pela liberdade de tratar o desejo gay sem filtros, enquanto sua trajetória também se conecta a outros artistas LGBTQIA+ que vêm ocupando diferentes espaços da música brasileira.
Em Glock Glock, a barbearia vira quase um pequeno laboratório dessa inversão. Um espaço associado a uma masculinidade específica se transforma em território de outras possibilidades. Ali, o corpo não precisa esconder desejo. A sensualidade não precisa existir apenas nas entrelinhas. Ela está na frente da câmera — e talvez essa seja a imagem que fica.
Não a de um funkeiro gay que decidiu entrar em um espaço onde, teoricamente, não deveria estar. Mas a de um artista lembrando que ele sempre esteve ali.

