Exibido no Tribeca Festival, “Confessions II — The Film” reforça a importância dos videoclipes como forma de arte e apresenta os primeiros vislumbres do novo álbum da Rainha do Pop
Lançado nesta segunda-feira (8), “Confessions II — The Film” chegou ao YouTube após sua estreia mundial no Tribeca Festival, em Nova York. Dirigido pela dupla David Toro e Solomon Chase, conhecida como TORSO, o curta apresenta as primeiras músicas do aguardado álbum “Confessions II”, sucessor espiritual de “Confessions on a Dance Floor” (2005), com lançamento previsto para 3 de julho.

Além de servir como prévia do novo projeto musical, o filme reúne nomes de peso do cinema, da moda e da música. Estão presentes Julia Garner, que interpretará Madonna em sua futura cinebiografia, Benedict Cumberbatch, Gwendoline Christie, Richard E. Grant, o jogador brasileiro João Pedro, Archie Madekwe, Odessa A’zion, Kate Moss, Sabrina Carpenter, Feid, Honey Dijon, Arca, Shygirl, Debi Mazar e Lourdes Maria, filha da cantora.
Com pouco mais de dez minutos de duração, o projeto apresenta faixas inéditas como “Good For The Soul“, “Bring Your Love“, “Danceteria“, “One Step Away“, “Read My Lips” e “I Feel So Free“, transformando as músicas em uma narrativa visual contínua. É justamente a partir desse ponto que começa minha principal impressão sobre o curta: Madonna traz de volta não só a pista de dança, mas também a arte visual como parte fundamental da experiência musical.
Em um cenário onde videoclipes são frequentemente tratados como irrelevantes ou como um gasto desnecessário, Madonna mostra justamente o contrário. A artista prova que essa forma de contar histórias, criar universos e estabelecer conexões continua viva, ainda que muitas vezes sufocada em meio a visualizers genéricos lançados por comodismo ou medo de arriscar.
Desde os primeiros minutos, fica evidente o cuidado cinematográfico da produção. O curta aposta em cenários elaborados, efeitos práticos e uma direção visual que valoriza cada detalhe. Em uma indústria cada vez mais inclinada ao uso de inteligência artificial para criar imagens e vídeos, é refrescante ver uma artista apostando em recursos que preservam o fator humano e artístico da obra.
Grande parte desse resultado passa pelo trabalho da dupla David Toro e Solomon Chase. A direção transforma as músicas em uma narrativa contínua, criando uma experiência que vai muito além do videoclipe tradicional e reforça a identidade visual construída por Madonna ao longo de décadas.
O filme se inicia com uma imagem simbólica e poderosa: Madonna dando à luz. A cena funciona como uma metáfora para sua própria trajetória, como se estivesse mais uma vez dando vida ao pop e reafirmando seu papel como uma das artistas mais influentes da história da música.
Entre as participações musicais, Sabrina Carpenter surge em um dos momentos mais magnéticos do curta ao lado de Madonna em “Bring Your Love“. A faixa, que as duas já haviam apresentado juntas durante o Coachella e que estará presente em “Confessions II”, ganha aqui uma nova dimensão visual. Mais do que um encontro entre duas estrelas do pop, a parceria simboliza a convivência entre diferentes gerações da música.
Não existe a sensação de uma artista tentando ocupar o espaço da outra; pelo contrário, há respeito mútuo, cumplicidade e admiração. Em cena, Madonna e Sabrina estão hipnotizantes, dividindo a atenção do espectador sem esforço e mostrando que passado, presente e futuro do pop podem coexistir em perfeita sintonia.
Um dos momentos mais icônicos do curta envolve a parceria com o Grindr. Ambientada em um “banheirão” estilizado, a sequência reúne referências à vida noturna de Nova York, ao início da carreira da cantora e a diferentes momentos de sua trajetória artística. É justamente nessa cena que Kate Moss faz uma de suas aparições mais ilustres.
A colaboração com o Grindr também reforça a histórica ligação de Madonna com a comunidade LGBTQIAPN+. Trata-se de uma relação construída muito antes das redes sociais ou das métricas digitais. Desde os anos 1980, a cantora utiliza sua voz para defender direitos, combater preconceitos e amplificar vozes frequentemente marginalizadas.
Outro momento emocionante acontece com a presença de Daniele Sibilli interpretando Martin Burgoyne, melhor amigo de Madonna, que faleceu em 1986 em decorrência de complicações relacionadas à AIDS. A homenagem é sensível, respeitosa e ajuda a conectar o passado e o presente da artista.

Pelo que é possível ouvir, o material musical traz frescor sem abandonar a identidade que tornou Madonna uma referência. As novas músicas dialogam com a energia dançante de “Confessions on a Dance Floor” de 2005, ao mesmo tempo em que carregam ecos da sensualidade de “Erotica” e um pouco da espiritualidade eletrônica de “Ray of Light“.
Outro destaque é a participação de Feid. O cantor colombiano se tornou um dos maiores nomes da música latina da atualidade, acumulando bilhões de reproduções nas plataformas digitais e uma série de sucessos globais. Sua presença adiciona uma energia contemporânea ao projeto e ajuda a conectar Madonna às novas gerações sem que ela precise abrir mão de sua própria identidade artística.
Embora a colaboração não seja com um artista brasileiro, alguns elementos presentes no curta e na construção rítmica de determinadas faixas remetem à cultura das pistas de dança latino-americanas com o funk carioca. É mais um gesto que demonstra o carinho da cantora pelo público brasileiro, especialmente após o histórico show realizado em Copacabana, em 2024.
Visualmente, o curta impressiona pela clareza e pela riqueza de detalhes. Mesmo nas sequências noturnas, tudo permanece visível e cuidadosamente construído. As coreografias, os figurinos, as transições e a composição dos cenários fazem com que os olhos permaneçam atentos do início ao fim.
Também é difícil ignorar possíveis referências a “Procura-se Susan Desesperadamente“, filme que marcou uma das fases mais importantes da trajetória de Madonna no cinema. As referências à Nova York dos anos 1980, à busca por identidade e à reinvenção constante parecem dialogar diretamente com aquele período de sua carreira, criando uma ponte entre a jovem artista que sonhava conquistar o mundo e a lenda que ela se tornou.
O encerramento merece atenção especial. A última sequência mostra Lourdes Maria caminhando por diferentes quartos enquanto carrega uma câmera. Vestida de látex preto, ela observa um ambiente ocupado por figuras igualmente vestidas em couro e látex, enquanto Madonna aparece nas televisões espalhadas pelo cenário. A cena transmite uma sensação de legado, continuidade e permanência cultural.
Mais do que um simples audiovisual, “Confessions II — The Film” parece dizer ao espectador: sente-se e preste atenção. Não é um conteúdo feito para ser consumido em poucos segundos e esquecido logo depois. É uma obra construída para ser observada, interpretada e revisitada.
Madonna não está sozinha nessa missão de resgatar a importância dos videoclipes. Nos últimos anos, Ariana Grande apostou em projetos audiovisuais cada vez mais ambiciosos para acompanhar seus lançamentos, enquanto Anitta também tem investido em narrativas visuais para apresentar novas fases de sua carreira.
No Brasil, Veigh também já defendeu publicamente a importância dos videoclipes como extensão da experiência musical. Em entrevistas, o rapper destacou que a imagem continua sendo uma ferramenta fundamental para ampliar a narrativa das canções e criar conexões mais profundas com o público.
De 0 a 10, Madonna merece nota 1000. Seu retorno é triunfal e reforça, sem precisar provar nada a ninguém, por que continua sendo uma das artistas mais relevantes do planeta.
Ao surgir dando à luz no início do curta, Madonna parece resumir toda a mensagem da obra em uma única imagem: ela não apenas ajudou a moldar o pop moderno, como continua contribuindo para seu nascimento constante. Seu legado ultrapassa a música e alcança o cinema, a moda, o audiovisual e pautas sociais que seguem fundamentais até hoje.

“Confessions II — The Film” não é apenas uma apresentação de músicas inéditas. É uma declaração de amor à arte visual, aos videoclipes e à capacidade que a música ainda tem de criar experiências memoráveis quando artistas decidem ir além do básico. E, mais uma vez, Madonna mostra que continua enxergando o futuro enquanto boa parte da indústria ainda tenta alcançá-la.

