Guia faixa a faixa reconstrói a jornada sonora e lírica que transformou o último projeto de Miley Cyrus em um clássico instantâneo
No dia 30 de maio do ano passado, o mundo da música pop parava para ouvir o que viria a ser um dos capítulos mais refinados e audaciosos da carreira de Miley Cyrus. O álbum Something Beautiful completa seu primeiro ano de vida consolidado não apenas como um sucesso de crítica, mas como o manifesto de uma artista que finalmente assumiu o controle total de sua narrativa e de sua sonoridade.

Vindo do estrondoso sucesso de Endless Summer Vacation (2023), que lhe rendeu seus primeiros e aguardados Grammys, Miley não escolheu o caminho mais fácil da repetição. Em vez disso, ela se uniu ao mestre da moda e do conceito, Hedi Slimane, para criar um álbum visual e sonoro profundamente inspirado no psicodelismo dos anos 1970, no soul clássico e em uma estética de alta-costura melancólica.
É um álbum conceitual que tenta curar uma cultura que está doente…É visual, é fashion, é cinematográfico.”
revelou Miley na época do lançamento.
“Do luto à entrega, da dor ao renascimento”. Para celebrar esse primeiro aniversário, mergulhamos novamente na tracklist desse corpo de trabalho que provou que, por trás da camaleoa do pop, existe uma musicista de sensibilidade rara.
Faixa a Faixa: A Anatomia de uma Ópera Pop
1. PRELUDE
“Like when following an image from a train…”
A abertura do projeto nos introduz à mente subconsciente de Miley, inspirada em sua primeira sessão de EMDR (psicoterapia que ajuda o cérebro a reprocessar traumas). No filme musical, a estética de um trem em movimento simboliza a observação passiva de sua própria história, onde o passado veloz exige esforço para ser reconstruído.
Com uma sonoridade etérea, a faixa acessa memórias ancestrais e evoca a presença espiritual de sua avó materna. Retratando décadas de negligência interna em prol da fama, Miley sussurra que “a beleza que a gente encontra sozinha… é uma oração querendo ser dividida”, estabelecendo a tese do álbum: converter o isolamento traumático em cura coletiva e rito de passagem.
2. SOMETHING BEAUTIFUL
“Tell me something beautiful tonight…”
Na faixa-título, a vulnerabilidade se transforma em um clamor visceral que define a espinha dorsal emocional do projeto. Miley implora por um vislumbre de transcendência antes do colapso iminente, em uma busca desesperada por sentido. A metáfora “Water to red wine” eleva o cotidiano ao status de sagrado, sugerindo que o amor detém o poder alquímico de transmutar a dor e ordenar o caos interno.
O verso “Watching the doves cry into the sunrise” surge como uma reverência sofisticada a When Doves Cry, clássico de Prince, espelhando a mesma angústia existencial sobre a solidão profunda. Aqui, a paz é personificada e chora ao amanhecer, sinalizando que nem mesmo a luz de um novo dia é capaz de dissipar sua melancolia. Consumida por uma paixão obsessiva, a interpretação vocal de Miley oscila entre o desejo ardente de salvação e o medo paralisante de encarar a realidade nua e crua.
Essa faixa funciona como o verdadeiro portal para as profundezas de sua psique, preparando o ouvinte para a jornada de renascimento que permeia as treze faixas do disco.
3. END OF THE WORLD
“…let’s pretend it’s not the end of the world…”
Esta balada devastadora ressignifica o conceito de apocalipse: não se trata do fim do planeta, mas sim da partida da pessoa que sintetiza o mundo de quem ama. Composta sob o impacto do medo da ausência de sua mãe e mentora, Tish Cyrus, a faixa pulsa com uma devoção avassaladora, explorando um amor tão profundo que sua possível perda se torna aterrorizante.
Em vez de vocais explosivos, Miley opta pela contenção; não há grito de revolta, apenas a aceitação terna e dolorosa do inevitável. A canção funciona como um rito de rendição, onde a artista abraça a finitude de forma íntima e desarmada.
4. MORE TO LOSE
“…I stay when the ecstasy is far away…”
Nesta faixa, o sentimento de luto se manifesta através da desilusão. A frase “I just thought we had more to lose” sintetiza o fardo de quem desperta de uma idealização afetiva, confrontando a realidade de ter se empenhado solitariamente em um vínculo unilateral. A composição captura a angústia de quem supunha habitar algo extraordinário, deparando-se apenas com a ausência de reciprocidade.
A interpretação de Miley é despida de amargura, dando lugar a uma melancolia madura e serena. Ela vocaliza a percepção de ter se doado por inteiro a alguém que sequer notou tamanha dedicação, convertendo o sofrimento em um processo reflexivo de autoconhecimento.
5. INTERLUDE 1
O primeiro interlúdio atua como uma fenda sonora. Curto e incisivo, ele introduz um ruído industrial metálico, um “panelaço” abafado no peito que sinaliza o início da combustão interna. Não há explosão imediata, mas o aviso estético é claro: a estabilidade emocional acabou e a atmosfera do álbum está prestes a mudar drasticamente.
6. EASY LOVER
“…Anything goes when we’re under cover, But you’re not an easy lover…”
Originalmente concebida durante a era Plastic Hearts, esta é uma das composições mais complexas do disco. Com uma sonoridade que remete ao rock de arena, sua letra parece confirmar velhas especulações de bastidores sobre a relação com o produtor Andrew Watt.
Através da estética do terror psicológico, o material visual explora a angústia de ocupar o lugar de “a outra” em uma relação pautada por segredos. No impactante verso “Tie me to horses and I still wouldn’t leave ya”, Miley ilustra o ápice da dependência afetiva: uma entrega total a um amor que, embora genuíno para ela, não passava de uma manipulação do parceiro.
7. INTERLUDE 2
Se o primeiro interlúdio era uma sirene de perigo, este segundo funciona como uma transição xamânica. A instrumentação abafada simula a travessia por um portal aquático ou uterino. A dor finalmente é deixada para trás para dar espaço à luz que prepara o ouvinte para a alvorada do álbum.
8. GOLDEN BURNING SUN
“I’ll tell everyone you’re the only one i want…”
Emergindo da obscuridade emocional, a canção dedicada ao seu companheiro, Maxx Morando, funciona como um amanhecer que dissipa a neblina.

Com uma estética lo-fi delicada e minimalista, a obra foca na aspiração por uma vida afetiva tranquila e reservada, valorizando momentos cotidianos longe do escrutínio público.
Ao indagar “Se eu nunca te decepcionar, posso te ter?”, Miley demonstra uma fragilidade consciente e evoluída. Sem as armaduras do passado, ela se permite enfrentar o novo capítulo de sua vida com bravura.
9. WALK OF FAME (com Brittany Howard)
“Every time I walk, it’s a walk of fame.”
Esta faixa se desenrola como uma ópera pop barroca, mergulhada em uma melancolia que explora o contraste irônico entre o aplauso das multidões e o isolamento do indivíduo. Na narrativa visual, a fama é apresentada como uma ilusão sólida, um delírio alimentado por fantasias (“fueled by fantasy”).
No encerramento, a voz ancestral de Brittany Howard conduz um desfecho que remete a um funeral pop solene em Technicolor. A letra reflete sobre a imortalização industrial da artista: “Uma estrela enterrada no cimento, uma imagem eterna numa camiseta… você viverá para sempre”. É uma interpretação fúnebre e bela sobre a própria posteridade.

Contexto Artístico: Em um desdobramento onde a vida mimetizou a arte, Miley Cyrus recebeu sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood exatamente um ano após o lançamento desta música. O que era profecia poética tornou-se realidade física: a manifestação artística de Miley moldou o mundo real.
10. PRETEND YOU’RE GOD
“Do you still love me? i gotta know!”
Nesta faixa, a recaída emocional ganha contornos de um transe alucinatório, assemelhando-se a uma sessão de hipnoterapia. A imagem do trem ressurge com um impacto devastador: “Em meus sonhos, vejo seu rosto, me acerta como mil trens”, estabelecendo uma conexão direta com o início do disco.
A composição flutua drasticamente entre a sede de domínio (“me recria as estrelas”) e a vulnerabilidade causada pela solidão (“ele sumiu… estou assombrada”). Ao clamar para que o outro “finja ser Deus”, a letra revela a perigosa dependência de um vínculo tóxico, onde o parceiro exercia controle absoluto sobre a percepção de valor da protagonista.
11. EVERY GIRL YOU’VE EVER LOVED
“I can’t believe that you’re still holding out on me like a dog in the street”
Esta faixa se apresenta como um desfile de alta-costura construído sobre os escombros da rejeição. Com uma postura impecável e maquiagem borrada, Miley expõe a exaustão de quem se fragmentou em múltiplas identidades apenas para satisfazer os desejos de terceiros.
Longe de exaltar a sedução, Every Girl You’ve Ever Loved manifesta o cansaço de desempenhar todos os papéis (doce, intelectual, forte, sensual) para terminar sendo rotulada apenas como “fun in the dark” (diversão no escuro). Mergulhada em um pop teatral, a canção estabelece um vínculo direto com Easy Lover, convertendo a antiga submissão em um manifesto de basta com ares aristocráticos.
12. REBORN
“Kill my ego, let’s be reborn.”
O batismo espiritual do álbum ocorre quando Miley compreende que o renascimento exige a morte ritualística do orgulho. A faixa é densa, sensual e imbuída de um misticismo cósmico.
A artista canta sobre almas que cruzam eras e dimensões através de raios e promessas: “Se o paraíso existe, eu já estive lá”. Aqui, o amor deixa de ser uma carência afetiva e passa a ser uma força da natureza à qual ela se entrega sem reservas, buscando a purificação pelo excesso.
13. GIVE ME LOVE
“Behind the curtain, Heaven awaits.”
O grand finale nos conduz a um Éden construído à imagem e semelhança da mitologia de Miley: um paraíso barroco, erótico e simultaneamente aterrorizante. A arquitetura da canção evoca diretamente a obra-prima renascentista O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, fundindo inocência, prazer e danação na mesma tela sonora.
Após passear por torres de tentação e maçãs douradas, a utopia colapsa em chamas: “While my perfect Eden goes down in flames / I’m eaten alive by the mouth of a monster.” Ao ser devorada pelo monstro da realidade, ela deixa seu testamento estético: se o amor humano falhar em salvar a nossa existência, o pop maximalista se encarregará de eternizar a nossa beleza.

14. SECRETS
“Can i be your hero”
“Secrets” abre o bloco de inéditas do deluxe com uma sofisticação instrumental absurda. A presença de Lindsey Buckingham na guitarra dedilhada e de Mick Fleetwood na bateria traz a assinatura inconfundível do som clássico do Fleetwood Mac dos anos 70 (na vibe de Rumours). A faixa é uma balada de rock acústico que cresce de forma orgânica, culminando em um solo de guitarra melancólico e potente.
A letra é uma das mais confessionais da carreira da Miley. Dedicada ao seu pai, Billy Ray Cyrus, a composição aborda de peito aberto a complexidade das relações familiares, o peso dos segredos guardados e o processo doloroso, mas necessário, de reconciliação e aceitação mútua.
15. LOOKDOWN
“I won’t lie, baby you’re my secret”
Esta é a faixa que quebra completamente qualquer regra do pop comercial contemporâneo. Com mais de 13 minutos de duração, “Lockdown“ é uma jornada imersiva e vanguardista ao lado de David Byrne. A música começa com uma linha de baixo pulsante e pós-punk, evoluindo para um arranjo de art-pop cheio de texturas eletrônicas e sintetizadores atmosféricos. Lembra muito a estrutura de “Venice Bitch“, da Lana Del Rey, onde a canção se transforma em uma viagem instrumental sem pressa de acabar.
A faixa explora temas de isolamento mental, a paranoia da era digital e a busca por conexão humana em um mundo hiperconectado, mas emocionalmente distante. O contraste entre os vocais teatrais e falados de Byrne com a voz rouca e expressiva de Miley cria uma dinâmica quase cinematográfica.
Colocar uma música com essa minutagem em uma versão deluxe é uma declaração clara de independência artística. Miley abre mão voluntariamente de qualquer apelo para o TikTok ou algoritmos de streaming para entregar uma obra de arte pura, fechando o álbum com um experimento sonoro corajoso e inesquecível.
Se a versão padrão de Something Beautiful já mostrava uma Miley madura, o deluxe consolida o projeto como um clássico instantâneo de pop alternativo. Ela usa essas duas faixas não como “sobras de estúdio“, mas como o ápice conceitual do disco, unindo o rock clássico e o experimentalismo mais ousado.
O Veredito: Um Monumento de Cura Através da Arte
Um ano depois, Something Beautiful prova que não foi apenas um capricho estético. O álbum redefiniu a imagem pública de Miley Cyrus, consolidando-a como uma artista madura, distante das polêmicas vazias do passado e totalmente focada no artesanato de sua música. Ao unir moda, cinema e música de forma tão coesa, Miley garantiu seu lugar na vanguarda da cultura pop contemporânea.
Este é um disco que recusa o consumo rápido e a audição superficial exigidos pelos algoritmos modernos. É uma obra que demanda tempo, escuta atenta e, acima de tudo, coragem para se olhar no espelho.
Ao longo de treze faixas, Miley Cyrus abriu cicatrizes históricas para pavimentar um caminho feito de dor, melancolia, fantasia e redenção. Entre sessões de EMDR, metáforas ferroviárias, divindades caídas e manifestações literais na Calçada da Fama, ela provou que a arte continua sendo o único feitiço capaz de transmutar os nossos maiores traumas em monumentos de beleza eterna.
Feliz aniversário, Something Beautiful.


1 comentário
o álbum é realmente algo lindo!! a matéria conseguiu transmitir muito bem a essência do álbum e a evolução artística da Miley. feliz aniversário something beautiful <3