Em meio à efervescência da cena musical alternativa, o Exclusive Os Cabides se destaca não apenas pelo som autêntico, mas também pela postura irreverente e pelas histórias que carregam nos bastidores.
Em entrevista exclusiva, o grupo catarinense abre o jogo sobre o processo criativo, os desafios da cena independente e os planos para o futuro. O bate-papo rendeu momentos descontraídos e reflexões sinceras.
A banda é composta por Antônio dos Anjos, Eduardo Possa, Carolina Werutsky, João Paulo Pretto e Maitê Fontalva, misturando irreverência, crítica social e uma estética sonora que desafia rótulos. O grupo se destaca pelo experimentalismo musical, rompendo com o previsível.
Confira a entrevista completa:
Carol (Vou de Grade): A primeira pergunta é mais descontraída, só para a gente começar de uma maneira bem leve: se cada um de vocês fosse um cabide, qual seria e por quê?
Carolina (Cabides): Eu tenho uma resposta para isso muito prontamente. Eu queria ser um meio transparentezinho, translúcido, ou roxo, ou laranja.
Antônio: Eu, com certeza, seria um cabide daqueles de arame de lavanderia, só que com algum papelzinho colado na frente, assim, com alguma frase ou algum desenho.
Maitê: Um cabide de veludo roxo!
Duds: Eu seria um cabide multiuso.
João: Eu seria um cabide de madeira.
Carol (Vou de Grade): Como foi que vocês perceberam que o Exclusive Os Cabides realmente seria um trabalho para vocês?
Antônio: Eu acho que estamos tentando, na verdade, vem sendo um trabalho.
João: Na verdade, a gente percebeu que era um trabalho quando virou um trabalho. Meio que teve um momento, foi mais assim que, entre ali a tour, a ficha foi meio se revelando. Mas, ao mesmo tempo, a ficha nunca cai, ela não deve cair, eu acho. Mas acho que, desde o primeiro momento, era o que eu pensava que eu queria, pelo menos. E aí, desde então, vem se tornando. É uma constante evolução, todo dia pensando sobre.
Duds: Eu comecei a ver como trabalho quando decidi me mudar meio que da zona rural aqui de Florianópolis para morar no estúdio que a gente tem, pela perspectiva, né? Tipo assim, a gente tem o disco, a gente tem que rodar com ele, a gente tem que viajar, mostrar para as pessoas, fazer várias coisas. E eu pensei: “Esse é o momento de eu focar nisso.” Porque exige muita dedicação para você conseguir fazer essas coisas, viajar… enfim, e aí você meio que tem como encarar como um trabalho também. A gente tava falando, é muita coisa que tem que fazer e pensar todos os dias. A chance das coisas derraparem na curva é bem grande.
Carol (Vou de Grade): Se vocês pudessem voltar no tempo com toda essa experiência que estão tendo, vocês se dariam algum conselho?
Antônio: Eu acho que o conselho seria, desde o primeiro lançamento, buscar uma assessoria de imprensa legal, assim, como a gente buscou no nosso segundo álbum. Se a gente tivesse feito isso desde o “Roubaram Tudo”, se eu já tivesse encontrado com a Café8, que é com quem a gente trabalha hoje em dia, com a Thaís, a Marina, desde o início, acho que a gente poderia estar um pouco mais à frente… E também tiraria algumas partezinhas ou outras de umas besteiras que gravamos, umas faixas que agora não tem mais como mudar.
Carolina: É que isso é muito legal porque esse era muito o processo, e bota a gente numa esteira mais rápida, mas, ao mesmo tempo, o início é feito às vezes para ser tipo, tudo errado, assim, sei lá, para ser esquisito. Para fazer coisas que depois talvez tu não goste ou não se orgulhe tanto, artisticamente falando.
Maitê: Cuidado com o quarto copo de quentão!
Carolina: A gente deu muita sorte de ter achado a Café8, porque às vezes tem outras assessorias de imprensa que não são tão legais. Eu acho que tem a ver também com essas pessoas certas. Às vezes tu tem que bater a tapa para conhecer as pessoas certas, na hora certa.
Antônio: Outra dica talvez seria ter desmontado nosso antigo estúdio antes dele ser invadido por delinquentes das ruas. Várias coisas foram roubadas.
Carol (Vou de Grade): A banda está na sétima formação. O que vocês acham que está sendo essencial agora para vocês?
Carolina: Acho que o comprometimento de todos nós. Tá todo mundo na mesma página, acho que isso é bem importante para ter uma banda.
Maitê: O fato de todo mundo torcer para o Figueirense!
Duds: O foco no que importa. Se você quer ter uma banda, tem coisas que importam muito, e no caso, tem um comprometimento com o som. Eu acho que a gente tem isso. Tem uma visão de que isso é um trabalho, então, exige seriedade nessas coisas.
Carol (Vou de Grade): Eu queria que vocês explicassem o nome da banda para a galera...
João: Meu avô e o Antônio, a gente é primo, para quem não sabe, já começa por essa perspectiva. Dizem na minha família que ele foi roubado, pois ele tinha uma loja que vendia muitas coisas: toalhas, edredons… e comida. E aí ele foi roubado por delinquentes que foram embora com várias coisas, inclusive com os cabides da loja. E aí ele falou: “Roubaram tudo, exclusive os cabides!” em uma entrevista, porém, ele queria falar “inclusive”, mas falou errado, e virou uma piada na família. E aí, essa é a história.
Carol (Vou de Grade): Vocês acabaram de tocar no Popload Festival e a gente queria saber: qual é agora o festival dos sonhos de vocês?
Antônio: Eu acho que, para mim, seria tocar naquele do nordeste, o Molotov. Seria legal para, tipo, ir para outro lado do Brasil, como também um Primavera Sound da vida. Eu acho que eu pensaria mais nesses dois, mas assim, o Molotov é um que eu ando desejando bastante tocar.
Duds: Tem aquele que é no Rio também, o Rock The Mountain.
João: A gente quer conhecer lugares novos.
Carol (Vou de Grade): De onde surgiu a ideia de vocês fazerem a TV Kbids e quem teve a ideia?
João: Acho que surgiu quando a Carol ganhou uma câmera.
Carolina: Eu não sei, eu tava com essa câmerazinha e a gente achou que seria engraçado talvez eu comentar coisas do dia a dia.
Antônio: Mas partindo do ponto de que, se as bandas que a gente gosta fizessem esse tipo de conteúdo, a gente ia consumir, então, a gente pensou que as pessoas que gostam da gente poderiam gostar de chegar em casa com fome, pegar um café e, sabe, eu sou esse tipo de gente que vai chegar em casa e gosta de comer algo assistindo algo. E aí, se a gente semanalmente sempre tiver aquele dia: “Eu vou ver lá uma TV Kbids.”
Carolina: Mas tem literalmente pessoas que comentaram no YouTube com isso: “Tô vendo minha novelinha.”
Antônio: Eu acho legal porque é uma forma de conhecer a gente, de se identificar.
Carolina: De ver qual é a realidade de uma banda também, porque não é nada glamoroso, assim, é realmente o que é o dia a dia. Às vezes tem glamour, tem vídeos legais do Popload e tal, vídeo de backstage de festival, mas, no geral, é bem normal assim.
Antônio: E também é bom documentar as coisas para, tipo, daqui a uns anos a gente poder olhar para trás e estar com a memória mais fresca, sabe? Com esses vídeos e tal.
Carol (Vou de Grade): Se vocês pudessem colaborar com algum artista nacional ou internacional, quem seria?
Carolina: Julian Casablancas?
Antônio: O artista nacional que acho que seria legal ter um som com os Cabides seria bem foda se fosse com o Milton Nascimento. Uma música com ele eu ficaria em choque.
João: Ia ser legal também com o Arnaldo Batista.
Maitê: Fazer um feat. com o Pelados.
Duds: Com o Lô Borges seria massa também.
João: Com o Modest Mouse.
Maitê: Com o Oasis!
Antônio: A gente fez um feat. que ficou legal com a Clara Bicho. Foi a nossa primeira aproximação com outro artista assim, para construir algo. Foi legal. Foi em cima de uma música dela e a gente fez o arranjo (instrumental).
Carol (Vou de Grade): Se vocês pudessem resumir um pouco de como foi essa vida em turnê para vocês e o que mais gostaram, o que seria?
Maitê: Agora, quinta-feira, a gente vai pegar a estrada para fazer três shows, em três dias seguidos, no Rio Grande do Sul, passando frio. Eu acho que tá sendo… meio que nunca deixa de ser, só tem alguns intervalos onde a gente fica em Floripa.
João: Fazer show é muito massa, né? As coisas que a gente aprende no meio é sempre muito valioso. Como músico, acho que é uma das paradas mais legais que tem e é a forma que a gente tem de ganhar um dinheirinho.
Carol (Vou de Grade): Como vocês estão vendo a recepção dos fãs?
Carolina: Tem sido bem legal, é muito louco, velho. Pessoas dessas cidades cantando as músicas de volta e interagindo com a gente, se divertindo. Tem sido bem legal, bem divertido. Parece que todo mundo se diverte muito e a gente se diverte também.
Antônio: E as pessoas, como eu disse em alguma outra entrevista, é isso que as pessoas têm em comum, às vezes assim, que venho percebendo. Até talvez minimamente comportamental, tipo, pessoas bem felizes, de pessoas com roupas exóticas, loucas e mais novas que a gente. Eu acho que sou o mais novo da banda. Talvez não tão mais novo, eu acho.
João: Eu acho isso até uma coisa meio impressionante, tipo, pessoas mais novas que eu ainda gostando, e também tem pessoas mais velhas. O público é muito diverso, isso é massa.
Duds: Velhos do rock adoram nossos shows.
Carol (Vou de Grade): Como foi tocar no Circo Voador?
Antônio: Foi um dos melhores shows até hoje, assim, tipo, tá no top 5 fácil.
Carolina: No top 3, fácil. Foi um show muito legal, deu tudo certo, a gente tocou bem, tava cheio de amigos lá.
João: E foi o repertório inteiro.
Antônio: A gente abriu pro Boogarins, que era uma banda que a gente já ouviu há muito tempo. A gente já tinha tocado algumas vezes com eles, mas foi importante para a gente abrir para eles lá no Rio também. Daí, muita gente foi ver eles e acabou que choveu muito. Todo mundo acabou ficando debaixo da tenda do Circo e não espalhados. Foram forçados a viver isso ao vivo e isso foi ótimo.
Carol (Vou de Grade): Vocês teriam uma fofoca de backstage para contar pra gente?
João: A gente conheceu o Samuel Rosa, ele é bem legal! Aí a gente falou “oi” e ele falou “oi”. Eu falei: “Você participou muito da minha infância, cara. Valeu, é nós!” Ele apresentou o filho dele. A gente tirou uma selfie e foi embora.
Carolina: Teve várias coisas legais nesse Popload Festival, que a gente ficou em volta de várias estrelas. A gente tomou café da manhã com a Kim Gordon numa mesa do lado. Ela comendo um ovinho cozido com as duas mãos.
Duds: Eu tenho uma fofoca boa. O João sofreu um golpe.
João: Eu pedi uma pizza às 4h da manhã.
Antônio e Carolina: Era 6h da manhã.
João: Mas aí eu tava bêbado e era uma pizzaria 24 horas, e eu queria pedir muito uma pizza loucamente. O cara ficou falando que era para eu mandar mais dinheiro para ele assim, e aí ele me chamou de mendigo.
Carolina: Ele pediu para tu pagar… já tinha pago a pizza no aplicativo. Daí ele falou: “Não faz pelo Pix aqui, pelo WhatsApp.” Tu falou que não tinha dinheiro, porque o cartão do João também foi clonado antes disso. E aí, ele achou que o João não ter R$60 na conta era preocupante.
João: Mas ele queria me roubar mesmo.
Carolina: No final das contas, a pizza nunca veio.
Carol (Vou de Grade): E agora, para fechar, quem vocês veriam na grade? Já que nosso portal se chama Vou de Grade.
Carolina: Nós, em conjunto, vamos pensar, porque se cada um for falar um, vai ser uma desgraça. Talvez o Neil Young?
Maitê: Charlie Brown.
Carolina: Dois extremos. Neil Young, sentados tomando vinho, e Charlie Brown, se ele estivesse entre nós, batendo o cabelo.
Encerrando a entrevista com leveza e afeto, fica evidente que o Exclusive Os Cabides é mais do que uma banda: é um coletivo que vive a música como extensão da própria vida. Entre turnês, estúdios improvisados, vídeos caseiros e sonhos compartilhados, o grupo constrói uma trajetória marcada pela autenticidade, pelo humor e pela coragem de seguir criando, mesmo quando tudo parece incerto.
Com uma base de fãs cada vez mais diversa e engajada, e uma visão artística que não se acomoda, ‘Os Cabides’ seguem desafiando rótulos e ampliando horizontes. Se o futuro da música independente passa por vozes que ousam ser diferentes, é certo que eles estarão entre elas, com cabides de veludo roxo, de madeira, de arame e, principalmente, com espaço para pendurar novas ideias.
E como eles mesmos dizem: “A ficha nunca cai, e talvez nem deva.”

