Cantora fala sobre saúde mental, autoestima, carreira solo, amizade com Duda Beat e o processo de construção do audiovisual que marca uma nova fase artística
Dois anos após dar os primeiros passos oficiais ao retorno em sua carreira solo com o lançamento de “Saudade Sussurrou”, Gabi Melim vive um dos momentos mais importantes de sua trajetória.
O lançamento de “Escapismo”, novo audiovisual que reúne canções inéditas, releituras e participações especiais, chega como a consolidação de uma artista que, após anos de exposição, sucesso e desafios pessoais, parece finalmente ter encontrado sua própria voz.
Mais do que um novo projeto musical, “Escapismo” surge como um retrato da mulher que Gabi se tornou. Em entrevista ao Vou de Grade, a cantora refletiu sobre os últimos anos de sua vida, falou sobre saúde mental, autoestima, amadurecimento e revelou por que considera este o trabalho mais importante de sua carreira.
‘Gabriela’ eu queria me apresentar ao mundo. Porque, às vezes, numa banda, a gente não consegue se aprofundar 100% nas próprias referências, porque é o coletivo. E ‘Escapismo’ é muito mais sobre voltar para si.
explicou ao Vou de Grade
A declaração ajuda a entender a dimensão do projeto. Se o álbum “Gabriela”, lançado em 2024, representava a apresentação de uma nova fase artística, “Escapismo” simboliza um reencontro. Um mergulho mais profundo em suas próprias referências, experiências e sentimentos.
Eu acho que estou no melhor momento da minha vida, que estou mais livre, que estou ousando mais, que estou me divertindo mais, que estou curtindo mais os processos.
afirmou a artista
Um álbum que nasce da reconstrução
Ao longo da conversa, Gabi deixou claro que o novo trabalho foi construído a partir das transformações que viveu nos últimos anos.
Embora hoje fale sobre o período com serenidade, a artista relembra que enfrentou momentos delicados que impactaram não apenas sua carreira, mas também sua relação consigo mesma.
Entre eles estão episódios de depressão, problemas de saúde, exaustão física e emocional provocada pela intensa rotina profissional e as duas paralisias faciais que enfrentou.
Durante o auge da Melim, a agenda intensa incluía shows, programas de televisão, publicidade, composição e uma relação extremamente próxima com os fãs. Segundo ela, houve momentos em que o ritmo cobrou um preço alto.
Por muitos momentos na minha vida eu não consegui curtir porque eu estava muito cansada, muito exausta. Principalmente no auge. Era uma correria muito louca. Eu quase perdi a vibração da corda vocal direita.
Gabi Melim
O episódio se somou a outras dificuldades que vieram nos anos seguintes e ajudou a moldar a mensagem que hoje atravessa o novo álbum.
Tudo isso que eu passei, esses processos, e também outros processos da vida, a paralisia, relações que às vezes não são tão saudáveis… Acho que tudo isso faz a gente se afastar da gente.
Gabi Melim
É justamente desse afastamento que nasce o conceito de “Escapismo”.

Entre fugir e voltar para si
Embora o título do projeto remeta à ideia de fuga, Gabi faz questão de esclarecer que o álbum propõe justamente o movimento contrário. Ao longo da entrevista, ela repetiu diversas vezes que o trabalho fala sobre a importância de se reconectar consigo mesmo, mesmo quando a realidade parece difícil demais.
Tudo bem você fugir, você escapar quando aquilo parece pesado demais. Mas também saber voltar para si, saber se olhar de dentro para fora.
Gabi Melim
A cantora acredita que a sociedade vive um período marcado pela exaustão emocional e pelo excesso de estímulos. Nesse contexto, o escapismo pode funcionar tanto como um respiro quanto como uma armadilha.
Por isso, as músicas do projeto transitam entre vulnerabilidade, reflexão e força. A proposta aparece especialmente nas faixas inéditas, que abordam temas como autoestima, autonomia, liberdade emocional e relações abusivas.
Para Gabi, o álbum funciona quase como uma conversa consigo mesma.
Quando eu consigo trazer os meus sentimentos e materializar isso em forma de canção, eu também consigo tirar aquilo de mim. Consigo olhar aquilo de fora.
Gabi Melim
A mulher que existe além das caixas
Outro tema recorrente durante a entrevista foi a liberdade de ser quem se é. Ao falar sobre o conceito do álbum, Gabi refletiu sobre as expectativas que costumam ser impostas às mulheres e sobre a necessidade constante de se encaixar em padrões.
Eu acho que as pessoas tentam colocar a gente numa caixa, tentam encaixar a gente em algo que é mais fácil de resumir.
Gabi Melim
Ela afirma que uma das principais lições adquiridas nos últimos anos foi justamente aprender a aceitar suas próprias contradições. Para a cantora, amadurecer também significou entender que diferentes versões de si podem coexistir.
Eu consigo ser doce, mas também consigo ser selvagem. Acho que é a gente conseguir abraçar todos os nossos lados.
Gabi Melim
Essa mensagem aparece de forma simbólica em músicas como “Onça Selvagem”, uma das inéditas do projeto, e também nas escolhas estéticas que acompanham essa nova fase. Mais do que construir uma personagem, Gabi buscou apresentar uma versão mais autêntica de si mesma.

A parceria criativa e afetiva com Duda Beat
Se musicalmente “Escapismo” representa um mergulho pessoal, visualmente o projeto também contou com uma colaboradora fundamental: Duda Beat.
Amigas há anos, as duas desenvolveram uma relação que ultrapassa as parcerias profissionais.
Eu falo com a Duda basicamente todos os dias. É raro a gente ficar um ou dois dias sem falar. A Duda participou de tudo. Participou da capa, participou das roupas, participou dessa identidade visual.
Gabi Melim
Foi dela, inclusive, uma das sugestões que simbolizam a mudança de fase da cantora.
Foi uma ideia que veio da Duda. Ela falou: ‘Por que você não corta esse cabelo? Fica mais moderno’. Também era uma vontade de trazer uma cara diferente.
Gabi Melim
Além de assinar a direção criativa do projeto, Duda também participa da faixa “Belo Horizonte”, uma das releituras presentes no audiovisual.
O começo de uma nova fase
Embora “Escapismo” tenha acabado de chegar ao público, Gabi já olha para os próximos passos. A cantora revelou que a equipe está finalizando os detalhes da turnê que levará o repertório do álbum para os palcos nos próximos meses.
Mais do que divulgar novas músicas, o retorno à estrada representa uma reconexão com o espaço onde ela acredita ter construído sua trajetória.
Eu não vejo a hora de voltar aos palcos. É onde eu me sinto em casa.
Gabi Melim
Ao final da entrevista, ficou evidente que “Escapismo” funciona como uma espécie de síntese dos últimos anos de sua vida: os desafios, as pausas, os recomeços e as descobertas. Um trabalho construído a partir da vulnerabilidade, mas que escolhe falar sobre força.
Nem assim eu vou escapar de mim.
trecho da letra de ‘Escapismo’
A frase, presente na faixa-título do álbum, talvez seja também a melhor definição para a fase que Gabi Melim vive hoje: uma artista que encontrou na música um caminho para voltar a si mesma — e que agora convida o público a fazer o mesmo.

