Em entrevista exclusiva, banda paraibana revisita a construção de sua identidade sonora, o reconhecimento internacional e o caminho até o palco do Lolla
A banda Papangu chega ao Lollapalooza Brasil 2026 como um dos nomes mais singulares da música brasileira contemporânea. Formada em João Pessoa (PB), o grupo paraibano construiu sua trajetória a partir do choque entre linguagens que vão do rock progressivo ao metal experimental, passando por referências nordestinas, jazz e improvisação. Hoje, Papangu ocupa um lugar raro no cenário nacional: um projeto que nasce fora dos grandes centros e que dialoga com a vanguarda internacional.

Em entrevista exclusiva ao Vou de Grade, o grupo falou sobre a construção dessa identidade sonora, os caminhos que levaram ao reconhecimento fora do Brasil, o impacto dos últimos lançamentos e a expectativa para a estreia no Lollapalooza Brasil 2026. Do primeiro disco, Holoceno (2021), que abriu portas em circuitos especializados, ao ambicioso Lampião Rei (2024), trabalho conceitual inspirado no imaginário em torno de Virgulino Ferreira da Silva, a Papangu detalha um percurso marcado pela aposta em narrativas próprias.
Identidade sonora
Ao longo dos anos, a Papangu passou a ser associada a rótulos que tentam dar conta de sua complexidade, mas nenhum deles parece suficiente por si só. “Com o tempo, absorvemos rótulos que destacam características da banda que muito prezamos, seja o Rock Troncho, o Hermetocore, o rock progressivo ou o metal vanguardista. A sonoridade da Papangu nasce do atrito entre linguagens. Não é uma fusão limpa ou pensada: é torta, dissonante, híbrida, mas consciente de sua origem e aberta ao risco”, explicam Rodolfo Salgueiro e Marco Mayer.
Essa lógica do atrito se manifesta de forma ainda mais clara em Lampião Rei, segundo álbum do grupo. O disco parte da figura histórica de Virgulino Ferreira da Silva, mas evita o caminho óbvio da biografia. “Além da figura histórica, Virgulino é um mito moldado por muitas vozes: ora demônio, ora herói. Essa ambiguidade causa muito espanto, especialmente na criança que é exposta a essas histórias – o que foi o nosso caso”, contam.
A ideia do álbum atravessa praticamente toda a história da banda. “A ideia de recontar a história de Lampião vem desde a gênese da banda, lá em 2012”, afirmam. O projeto começou a ganhar forma visual e narrativa ainda em 2014, com um storyboard em realismo mágico, mas só entrou em execução após Holoceno. “É nesse momento que começamos a adaptar material antigo e a compor sons novos para emoldurar a narrativa. Em 2023, finalizamos o processo composicional de forma bastante colaborativa, e registramos essa interpretação da ascensão do Rei do Cangaço”.
Reconhecimento internacional
Curiosamente, o reconhecimento fora do Brasil antecedeu a consolidação nacional. “A Papangu tem no Holoceno sua primeira repercussão internacional, ainda que nichada e em grupos especializados, mas inaugura um processo de reconhecimento internacional antes do nacional”, explicam. Essa validação externa ajudou a abrir portas no próprio país, levando a convites para festivais e palcos maiores.
O salto definitivo veio a partir de 2024, com apresentações em eventos de grande visibilidade. “A virada de profissionalismo e maior repercussão veio com o Knotfest 2024 e quando fomos convidados para o Complexity Fest, na Holanda, e o ArcTanGent, no Reino Unido; ambos em 2025″. A resposta do público e da crítica foi decisiva: “A recepção calorosa, os elogios de veículos gringos e a conexão com um público diverso nos mostraram que havia ressonância além das fronteiras”.
A chamada turnê Umburana marcou um novo momento para a banda. “A turnê Umburana foi transformadora. Expandiu nossa audiência e nos colocou em contato com outras bandas, produtores e cenas que também desafiam rótulos”. Mesmo com letras em português e um imaginário profundamente nordestino, a comunicação se mostrou universal, segundo os músicos.
Lollapalooza 2026
A presença no Lollapalooza Brasil 2026 representa, para a Papangu, mais do que um novo público. “É um marco. Estar no Lollapalooza representa uma abertura para propostas como a nossa. É um espaço que nos permite amplificar o Rock Troncho em larga escala e mostrar que o Brasil profundo também faz música de vanguarda”, afirmam. Para o grupo, a escalação também reflete transformações mais amplas. “Acreditamos que essa presença também diz muito sobre a evolução da cena independente nacional e o cenário midstream”.
No palco, a promessa é de impacto direto. “Um atropelo. O show será uma síntese dos nossos dois primeiros álbuns e um prenúncio do terceiro. Levar ao Lolla nossa sonoridade é uma oportunidade de furar a bolha e proporcionar uma experiência intensa”.
O futuro já está em movimento. “Sim! Temos grandes lançamentos previstos para 2026”, antecipam, além de uma agenda ambiciosa. “Temos que montar no cavalo selado que só passa uma vez. Apostaremos muitas fichas no terceiro disco e em duas longas turnês, pelo menos, cobrindo shows internacionais (como o já confirmado ArcTanGent 2026 no Reino Unido) e pelo Brasil”.
Quando pensam em legado, a resposta é clara e coerente com toda a trajetória. “Como uma banda que expandiu os limites do que se entende por ‘rock brasileiro’, que não teve medo de parecer estranha, e que realmente abraçou o esmero em fazer discos com D maiúsculo”.
Para a Papangu, abrir caminhos é parte essencial do percurso. “Se formos lembrados como aqueles que abriram caminhos para novas linguagens e para o Nordeste experimental, já valeu a pena”.
SERVIÇO:
LOLLAPALOOZA BRASIL 2026
🗓️ Quando: 20, 21 e 22 de março de 2026
📍 Onde: Autódromo de Interlagos | São Paulo
🎫 Ingressos: Tickemaster
