Vindo de um lugar de exaustão, reflexão e reinvenção, nasce o sétimo álbum de estúdio de Charli XCX
O megassucesso do BRAT redefiniu a estética da cultura pop global, mas a ressaca da pista de dança cobra seu preço. Produzido ao lado de A.G. Coo e Finn Keane, o disco aprofunda-se em texturas experimentais, eletrônica abrasiva e em questionamentos sobre a fama, a maturiadade artística e o vazio que costuma acompanhar o fim de eras festivas.
O título do álbum, “Music, Fashion, Film”, não é acidental. Ele funciona como uma trindade sagrada e, ao mesmo tempo, como as três grandes indústrias que devoram a identidade de um artista contemporâneo. O disco examina como a música vira produto de consumo rápido, como a moda dita a obsolescência do corpo e da imagem, e como o cinema (reforçado pela presença cinematográfica de diretores e conceitos visuais) transforma a vida privada em um eterno roteiro vigiado.
Sonoramente, o projeto afasta-se do hyperpop puro e caminha por uma vertente mais experimental e industrial. Sintetizadores metálicos, batidas cortantes e vocais processados criam uma atmosfera que transita entre a frieza de uma passarela de alta-costura e a claustrofobia de um estúdio fechado à meia-noite.
A seguir, mergulharemos em cada um dos capítulos dessa jornada sonora de cerca de 30 minutos:
Track by Track: A Jornada Completa
“Rock Music”
O disco abre de forma direta e quase abrupta. Apesar do título irônico, não há guitarras tradicionais de rock aqui, mas sim uma fusão frenética de batidas eletrônicas cortantes e uma energia industrial pesada que serve como um choque inicial para o ouvinte. É curta, barulhenta e dita o tom imprevisível do projeto.
“SS26”
Brincando com a nomenclatura corporativa de coleções de alta-costura (Spring/Summer 2026), a faixa aborda a velocidade vertiginosa da indústria da moda e a pressão estética implacável. A produção de A.G. Cook brilha com sintetizadores metálicos que simulam a frieza robótica de uma passarela de desfile.
“Card Declined”
Um dos momentos de maior fôlego e peso narrativo do álbum. A letra utiliza a metáfora mundana e humilhante de um cartão recusado para explorar a ansiedade financeira e existencial, questionando o glamour falso associado ao estilo de vida das celebridades. A batida vai se tornando densa e claustrofóbica conforme a música avança.
“Camera”
Lançada estrategicamente como um dos singles de prévia, a faixa trata da sensação constante de estar sob lentes, sendo vigiada, fotografada e julgada por algoritmos, paparazzi e fãs vorazes. A sonoridade é melancólica, mas mantém firme a estética club/experimental que caracteriza toda a fase.
“2007”
Uma viagem rápida e agridoce ao passado. Em vez de uma balada saudosista convencional, Charli utiliza timbres eletrônicos pixelados que remetem à estética da internet e do pop do início dos anos 2000, servindo como um eco distante de uma época de menor exposição digital.
“I’m Afraid”
Sem filtros ou defesas, a faixa coloca a autossabotagem e o medo profundo do fracasso, ou até do peso sufocante de um sucesso duradouro, no centro da mesa. É minimalista e direta, fazendo o ouvinte sentir o desconforto da incerteza que assombra a mente criativa da artista.
“Yeah”
Um interlúdio altamente rítmico que manipula a palavra “Yeah” de forma robótica e niilista. A faixa brinca abertamente com a superficialidade das letras de pista de dança, esvaziando o termo de qualquer significado festivo e transformando-o em um mantra cínico e repetitivo.cínico e repetitivo.
“Wink Wink”
Outro single que antecipou o disco. É brincalhona e magnética na superfície, mas carrega camadas densas de ironia sobre como a persona pública é performada e mercantilizada. A produção é afiada, compacta e feita sob medida para prender a atenção de forma instantânea.
“Persona”
Aqui, o foco absoluto é a dicotomia dolorosa entre quem ela é nos bastidores e a criatura midiática fabricada para o consumo público. A atmosfera sonora é densa e reflete a exaustão exata de precisar vestir máscaras sociais diferentes para sobreviver nas engrenagens da indústria.
“Magic Metal Montana”
Uma das composições mais abstratas e atmosféricas do projeto. A sonoridade evoca paisagens frias, industriais e metálicas misturadas com texturas futuristas, funcionando como um verdadeiro oásis de isolamento dentro da densa tracklist.
“No One Lasts Forever” (feat. David Cronenberg)
O grande gran finale. A faixa mais longa do álbum e, sem dúvidas, a mais surpreendente. Contando com uma participação especial e surreal do lendário cineasta David Cronenberg, que empresta sua voz a passagens faladas de tom reflexivo, clínico e sombrio, a música funciona como a aceitação definitiva de que tudo na vida, na arte e na juventude é passageiro. É o encerramento perfeito para um disco que se assume corajosamente como o “dia seguinte” da festa.
Se Brat foi sobre o grito e o suor da juventude em ebulição, Music, Fashion, Film é sobre o silêncio que ecoa quando as luzes do clube se apagam. Charli XCX prova mais uma vez que sua maior força criativa não está em repetir uma fórmula de sucesso, mas em usar a música eletrônica como uma ferramenta de psicanálise pop, dissecando as próprias inseguranças e entregando uma das obras mais corajosas e conceituais de sua carreira.

