Banda revisita sua sonoridade e reafirma sua força com “Carta de Adeus”
Porto Alegre, 1999, colégio Pastor Dohms: foi aí que surgiu a Fresno, hoje uma das maiores bandas de rock do Brasil. Demos enviadas por e-mail, o EP “O Acaso do Erro” – hoje, dificílimo de encontrar -, altos e baixos, momentos de frenesi seguidos por shows menores – para aos fãs que nunca foram embora- e uma trajetória constante que conquista e reafirma seu espaço na cena.

Dois anos após o álbum “Eu Nunca Fui Embora”, a Fresno acaba de lançar o seu novo álbum de estúdio, “Carta de Adeus”. Porém no último sábado (18), o grupo apresentou o álbum na integra em apresentação realizada no Espaço Unimed em São Paulo, os fãs que haviam comprado ingresso para o show receberam acesso antecipado ao trabalho.
Alguns spoilers do álbum vêm sendo divulgados pela banda há algum tempo, gerando expectativa entre os fãs que aguardam a nova era. Acredito que, mesmo com visuais e estética bem produzida e estudada, muita gente acabou se decepcionando com o projeto anterior, carregado de elementos da música pop e synths.
Então venho como porta-voz dessa “tragédia” anunciada: “Carta de Adeus” é o que a Fresno sempre foi, com letras cada vez mais maduras, produção polida e temas sobre amor (ou desamores?), batalhas internas e aquilo que a banda sempre prega: o direito de sentir.
Para quem acompanha o Lucas Silveira há tempos e está familiarizado com seus projetos solos, talvez uma onda de nostalgia apareça logo na primeira faixa, “Eu Não Vou Deixar Você Morrer”, que contém elementos de “Lebruce”, do projeto Visconde, apresentando a grandiosidade com que o álbum foi construído.
A segunda faixa, “Carta de Adeus (Bye Bye Tchau Tchau)”, remete à sonoridade dos últimos trabalhos. Ao escutar o álbum junto com os comentários feitos pelos integrantes e equipe, Thiago Guerra (bateria) cita que é uma música minimalista para um adeus bem resolvido. Minha interpretação sobre essa fala é justamente o abandono da musicalidade que envolveu a banda nos últimos anos e a reafirmação da força da Fresno, que sabe equilibrar uma estética nostálgica com escrita mais precisa e impactante e instrumentais fortes.

“Tentar De Novo E De Novo” talvez seja a música mais Fresno do álbum, no momento em que ouvi tive certeza que se tornaria um dos singles da banda, que as pessoas escutem na rádio e saibam quem está por trás – na última semana a banda fez o envio da faixa paras as rádios. Seguida de “Sóbria”, carregada de guitarras e pesares que levam à imersão na discografia da banda, foi o momento em que surgiu o sentimento de estar tendo acesso à nova era do grupo – mas talvez a faixa 4 de álbuns anteriores sempre me pegou: “Die Lüge”, do “Revanche” (2010), pode ter me atingido da mesma forma, mesmo sendo muito nova para sentir o que estava sendo exposto ali.
Grata surpresa ao chegar ao meio do disco, onde o grupo faz uma releitura da música “Pessoa”, de Dalto, lançada em 1983, que também tem uma versão interpretada por Marina Lima. O clima deixado por “Sóbria” se desfaz e, de forma sutil, apresenta o segundo ato do trabalho.
Seguida por “Logo Agora Que o Meu Mundo Girou” e “Tudo Que Você Quer”, que mantêm a pegada pop rock presente nos trabalhos da banda, com sonoridades e fórmulas que mostram a intimidade da relação do grupo com seus fãs, que sabem o que querem ouvir – intimidade que atinge seu ápice na faixa “Se Foi Tão Fácil”, balada que sempre é esperada nos trabalhos da Fresno, cada vez mais marcante e emotiva, evidenciando uma evolução natural e segura nas composições de Lucas Silveira.
Lembram no início desta resenha, quando comentei sobre a grandiosidade com que o álbum foi construído? “Carta de Adeus” chega ao ponto alto com “O Cantor e O Taxista”, faixa que se constrói de forma gradual e atinge o clímax em seus momentos finais, com um lirismo que coloca em dúvida se é a persona Lucas Fresno ou se é autobiográfico.

O álbum encerra com “Eu Não Sei Dizer Não”, que, mesmo sendo uma música da Fresno – ou seja, carregada de sentimentos que muitas vezes não são sobre finais felizes -, tem uma sonoridade que deixa o clima mais leve e com gosto de quero mais.
Na primeira audição, estranhei a forma como as três últimas canções foram dispostas – embora saiba que não estão ali de forma aleatória, elas contam uma história. Dentro do meu achismo, ou talvez pela proximidade com os trabalhos anteriores, ousaria dizer que a sequência seria “Eu Não Sei Dizer Não” – “Se Foi Tão Fácil” – “O Cantor e O Taxista”. Mas isso é suposição; não tenho dúvidas de que a ordem das faixas foi estudada antes de ser definida.
“Carta de Adeus” é o acalanto que os fãs da banda estavam procurando há algum tempo em projetos mais recentes. Prato cheio para quem é fã e porta de entrada para quem nunca ouviu um álbum do grupo em sua integridade.
O álbum já está disponível em todas as plataformas de streaming.

