Tasha & Tracie brilham em novo projeto com uma produção grandiosa e parcerias ilustres no álbum “Serena & Venus (Lado A)”. Leia a review completa aqui
As gêmeas Tasha & Tracie se destacam cada vez mais desde o seu surgimento. Com letras potentes, rimas afiadas e versos que trazem à tona a realidade muitas vezes dura da vida, a dupla que vem diretamente da Zona Norte de São Paulo nos presenteia com seu primeiro álbum de estúdio: “Serena & Venus (Lado A)”.
O álbum apresenta uma narrativa quase de ficção. Durante as 21 canções, o público conhece a história de Serena e Vênus, mulheres que se apaixonaram por bandidos, foram presas e acabaram esquecidas no sistema carcerário.
Falando de autoestima, amor, decepção, conquistas e questões sociais, as gêmeas exploram diferentes sonoridades, indo do rap ao R&B e ao cloud rap.
O projeto se inicia com uma intro que dá início à narrativa em um tom de “conto de fadas” moderno. Narrada pela icônica atriz Helen Helene, de “Lá vem a história” (Rá-Tim-Bum), a faixa traz reflexões poéticas como: “Um veneno que pode matar, às vezes também cura” e “Um relógio quebrado acerta as horas ao menos duas vezes ao dia”. Assim, mostra que, apesar dos pesares, há sempre um lado positivo capaz de nos fazer crescer em meio às adversidades.
Para contextualizar, Tasha & Tracie viveram uma infância marcada pela dureza: seus pais também passaram pelo sistema carcerário. É nítido que a dupla busca trazer à tona histórias que refletem a realidade de muitos no Brasil, mas, ao mesmo tempo, celebra o recomeço, não importa quanto tempo leve.
Após a intro “Tic-Tac” temos a faixa que nomeia o álbum “Serena e Venus”, onde elas abordam essa nova era e exaltam a sua trajetória aqui, produzida por Pizzol (Produtor que também aparece em 12 das 21 faixas do projeto) e “Top Shottas”, parceria com o artista Bitrinho, na primeira canção a dupla vem grande embaladas numa produção forte e que vem pra cima com potência, rimas que são autobiográficas mostrando cada passo até se tornarem quem são.
Em “Top Shottas” trazem uma atmosfera de autoconfiança, queixo pra cima e batidas dançantes com Britinho rimando com todo o talento que tem, que junto com “Amina” contam sobre conquistam mesmo com as dificuldades das ruas e da indústria.
“Amina” já é sucesso desde antes do lançamento do álbum, lançado como single, essa canção já conquistou o público por ter a essência do duo e mesmo assim ser algo com um frescor novo.
A quinta música “cRua” é realmente crua, aqui elas conversam frente a frente trazendo a realidade das ruas, você sente como se estivesse andando com elas enquanto muitas coisas acontecem a sua volta, os barulhos usadas na produção ao fundo com as batidas muito bem produzidas ilustram e te embalam muito bem, com certeza é uma das faixas que mais merecem atenção dos ouvintes.
Sabe aquela vibe fim dos anos 90 e início dos anos 2000? Isso está bem presente nesse álbum, “A milhão” é um flerte tímido e direto, romântico, aquela paixão platônica que no fim é irresistível e te faz sonhar.
Seguindo nessa onda romântica, “Simpatia” é sexy, te seduz e chama atenção, um feat 100% certeiro entre Tasha & Tracie, Bivolt, Pizzol e Liniker, que traz um vocal chocante de bom, a letra é divertida com referências de superstições como colocar o nome da pessoa amada no mel, banho de lua e rosas, sal grosso e entre outras coisas.O que chama atenção na faixa, além do instrumental, é como ela é cantada, uma versão das gêmeas que não tínhamos visto antes.
“Check Mate” e “Flor de Plástico” chegam com um tom de desilusão amorosa, é como cair na realidade de ter sonhado alto até demais, ter se entregado demais numa relação vazia e perigosa, e temos a confirmação com o “interlúdio Neurose”, o ouvinte entende onde essa persona se encontra depois de um relacionamento que a levou pra um lugar sombrio e isolado, andando em círculos, onde o tempo não passa e conta que descobriu sem querer o porque o pássaro a gaiola canta. Nessa faixa, a melodia é mais leve e lenta, com uma letra que expõe a tristeza de quem está do lado de dentro, mulheres que são esquecidas, não recebem visitas ou cartas.
Com um enredo onde as personagens vivem agora em um sistema prisional após o relacionamento, é palpável o sentimento de abandono. A raiva e o medo revezam com a dor e a tristeza pela mente de uma mulher que preza pelo filho que está do lado de fora e não pode ver, mas ao mesmo tempo se agarra na Fé que é algo único que pode se apegar para não enlouquecer, “Sem Perceber” é sobre isso, com um coral potente ao fundo você sente a empatia com a personagem que se sente só mas ainda tem a esperança. Elas mostram a revolta com a faixa, onde elas se dão conta dessa diferença, desse abandono, dessa injustiça onde são esquecidas e a falta de respeito do amante.
“To trampando” é independência, focar em si mesmo e no seu “corre”, e assim chegar a ser uma “Superstar”, faixa essa que traz de volta a diversão,é uma canção rap e dancehall, digna de tocar em desfile de moda, que Tasha & Tracie entende muito bem, aliás, são estilista e design de moda. Elas sabem o poder que possuem e não economizam em mostrar isso em suas composições como “Carisma”.
Para um novo bloco do album chegamos na interludio “Segue o Baile”, onde a personagem vai comemorar sua liberdade indo ao show de ninguém mais, ninguém menos que Tasha & Tracie. É incrível como elas brilham com parcerias que colam tão bem em suas músicas, Nath Fischer e Caio Passos complementam bem uma produção muito bem trabalhado e que gruda na cabeça em “Chefuxa”, aliás, a produção do projeto a cada faixa é brilhante e impecável, ao mesmo tempo que remete a trabalhos passados das artistas por manter sua essencia escutar esse album faixa a faixa é como uma surpresa boa e agradável aos ouvidos,como em “Cara Fechada” um funk com parceria com MC Marks, Fahel e Stuani.
Chegando ao final do álbum, as “Irmãs Metralhas”, como se nomeiam na música “Eu Diria” chegam grandes, dando um recado,”quer ganhar de mim, nem compete na mesma pista” e “isso não é teste, corre, o alarme vai tocar”, em “Dança” mais um confronto onde vão pra briga sem medo, elas falam “É que vejo protestos seguidos de link de autopromoção”, são afiadas e certeiras, trabalham na mente de uma forma sutil e explosiva. “Umami” encerra o álbum com uma melódia R&B, romántica, calma, tranquilizante e no meio dela o som sobe, explosivo e dançante.

Tasha & Tracie chegam muito mais crescentes e maduras em seu primeiro album, é visivel a potencia e grandiosidade de duas irmãs que passaram por altos e baixos na vida e que hoje usam de suas dores, amores, tristezas e alegrias como arte, escalam a cada canção o topo do mundo, com muitas referências que vieram antes delas e tendo como a si próprias como referência. “Serena & Venus (Lado A)” é um álbum que você precisa escutar do início ao fim e apreciar uma produção grandiosa, com história e composições poderosas. Tasha & Tracie realmente mostram a sua nova era, com faixas potentes, denúncias sociais, amor e decepção e o tempero das gêmeas que só elas tem.

