Do conceito narrativo ao encore intimista, banda reafirma conexão com diferentes gerações
Após 18 anos de espera, o My Chemical Romance finalmente desembarcou no Brasil com a Black Parade – e o resultado foi catarse coletiva no Allianz Parque.
A banda trouxe ao país seu espetáculo teatral para apresentar o icônico The Black Parade na íntegra, agora com uma nova narrativa. De acordo com teorias de fãs, a linha do tempo se passa antes de Long Live The Black Parade, turnê realizada durante o verão nos Estados Unidos.
Nas apresentações recentes, o grupo veste uniformes semelhantes aos usados em 2007. Ao subir ao palco, os integrantes surgem como pacientes ou detentos de uma instituição, recebendo medicação de enfermeiros, estabelecendo imediatamente o tom da encenação.
Caminhando pelo palco com seu uniforme militar, Gerard Way assume o controle da performance e conduz público e narrativa com segurança. Seu personagem – assim como parte da estética – remete ao filme O Gabinete do Dr. Caligari (1920), associação já levantada nas redes sociais, talvez assistir ao filme seja a resposta de todo o caos que os fãs tentam entender a cada apresentação, mas não podemos esquecer que são hipóteses e muitos shows ainda acontecerão e tudo pode mudar.
Um dos momentos mais marcantes foi “Welcome to the Black Parade”: a emoção do público era evidente após anos de espera. Já “Mama”, faixa oito do álbum, ganha destaque especial – os vocais originalmente gravados por Liza Minnelli são interpretados por uma cantora lírica que, dentro da história encenada, vive a enfermeira Sylvia. Em tom bem-humorado, Gerard brinca dizendo gostar de fazer mágica com ela, já que a personagem “faz coisas desaparecerem”.
Após a apresentação de The Black Parade, a banda retornou ao palco, agora como My Chemical Romance, para tocar músicas de outros trabalhos, interagindo com o público, com roupas comuns e em um cenário mais intimista. Como essa segunda parte traz um setlist surpresa, era possível perceber o público em euforia a cada música iniciada.
Fenômeno da era MTV e frequentemente lembrada entre as bandas mais importantes dos anos 2000, a apresentação reuniu fãs de diferentes gerações – inclusive quem não viveu o auge do grupo. A percepção da passagem do tempo é inevitável, mas a conexão permanece.
O My Chemical Romance entrou em hiato em 2013 e anunciou retorno em 2019, com planos interrompidos pela pandemia de coronavírus. Um dos shows mais aguardados pelo público brasileiro – e também latino-americano, já que a banda havia passado pelo continente apenas em 2008 -, a apresentação foi de tirar o fôlego e tenho certeza que cada ano de espera dos fãs foi compensado pela banda.
A abertura da noite ficou por conta do conjunto suéco The Hives, que levou a energia lá em cima com um show animado, muitas interações com o público e o frontman Pelle Almqvist entregando um português afiado.
Veja como foi o setlist da segunda noite da passagem do My Chemical Romance no Brasil. Apesar de muitos pedidos dos fãs, a faixa The Ghost of You, ficou de fora em ambas apresentações no Allianz Parque.

