Com setlist imprevisível, interação com os fãs e declarações políticas, cantora entregou uma apresentação que refletiu sua personalidade provocadora e a pluralidade de sua obra
Entre batidas eletrônicas, referências ao funk brasileiro e provocações políticas, M.I.A transformou o Cine Joia, em São Paulo, em uma grande pista de dança na noite de segunda-feira (2). A apresentação fez parte de sua passagem pelo Brasil, que começou no Rock The Mountain, no Rio de Janeiro, e terá continuidade no próximo fim de semana, quando a cantora volta a se apresentar no festival. Conhecida por shows que frequentemente fogem de um roteiro tradicional, a artista encontrou no improviso e na proximidade com os fãs os principais elementos de uma noite que refletiu diferentes facetas de sua trajetória.
Por volta das 21h40, M.I.A subiu ao palco ao som de “ILLYGIRL”, faixa do álbum MAYA (2010). Na sequência, veio “Bucky Done Gun”, acompanhada de uma explicação especial: a cantora fez questão de lembrar que aquela foi sua primeira música lançada nas Américas. Não por acaso, a faixa traz um sample de “Injeção”, da funkeira brasileira Deize Tigrona. Com o beat do funk tomando conta do espaço, M.I.A dançou e mostrou que a conexão com o público brasileiro começou logo nos primeiros minutos do show.
Conhecida por apresentações que seguem uma lógica bastante freestyle, a artista levou o improviso ao limite naquela noite. Pouco depois de começar o espetáculo, explicou que sua CDJ havia sido roubada durante o desembarque na cidade, o que a obrigou a reorganizar boa parte do repertório. Sem um setlist tão definido, M.I.A passou a pedir ajuda aos fãs, perguntando quais músicas gostariam de ouvir. Foi assim que surgiram pedidos como “Jimmy”, “Come Walk With Me” e “XXXO”. Nesta última, a cantora demonstrou certa resistência ao admitir que já não lembrava a letra, deixando que o público assumisse os vocais e cantasse por ela.
A proximidade entre artista e plateia também ganhou forma em momentos como “TEQKILLA” e “BORN FREE”, quando M.I.A se misturou aos fãs. O palco do Cine Joia deixou de ser o espaço protagonista para transformar a pista em uma grande festa compartilhada entre cantora e público. A cena reforçou a conexão da artista com os brasileiros, mas também evidenciou o alcance internacional de sua música: entre os presentes, havia fãs de diferentes nacionalidades, incluindo pessoas da Rússia, China e Venezuela. Essa pluralidade não é por acaso. Desde Arular (2005), seu álbum de estreia, M.I.A construiu uma discografia atravessada por questões políticas, conflitos territoriais, imigração e identidade, levando essas discussões para pistas de dança ao redor do mundo.
Aliás, política é um elemento indissociável de qualquer apresentação de M.I.A. Antes mesmo de subir ao palco, uma mensagem irônica já preparava o público para o que estava por vir: “A próxima artista é considerada extremamente ofensiva. Veja por sua conta e risco”. Em meio a cantos de apoio ao presidente Lula, a cantora demonstrou simpatia à sua reeleição, mas não perdeu a oportunidade de provocar: “Lula governará até 2030, então tomem cuidado”. Na sequência, completou: “Amem seus políticos como vocês me amam”, acompanhando a frase com um gesto de mão que sugeria certa ressalva.
Há uma consciência bastante particular na maneira como M.I.A se relaciona com seu público. Diferentemente de artistas que preferem evitar declarações capazes de dividir opiniões, ela parece compreender que sua relação com os fãs também é atravessada pela controvérsia. Seu trabalho nunca esteve interessado em oferecer respostas confortáveis, e a própria artista parece fazer questão de preservar esse espaço de desconforto.
Não por acaso, o show chega ao fim com seu maior sucesso, “Paper Planes”, música que sintetiza boa parte de sua trajetória artística e traduz os princípios políticos que atravessam sua discografia. Entre improvisos, provocações políticas e uma pista de dança tomada por fãs de diferentes partes do mundo, M.I.A encerrou a noite com uma de suas obras mais emblemáticas, reafirmando que, para ela, música e posicionamento político caminham lado a lado.

